Closing Time e a Relatividade

Há quase três meses, da última vez que eu publiquei alguma coisa neste blog, eu falei que ia falar de música. E quando eu publiquei aquilo, estava pensando especificamente na playlist que eu compartilhei naquele texto. A idéia era fazer uma publicação pra cada música daquela playlist, falando sobre o que a tal música representa pra mim, como me faz sentir, etc.

De início, eu tinha até planejado a sequência de músicas sobre as quais eu queria falar. A primeira seria Closing Time, do Semisonic, que foi justamente a música que me fez pensar em tudo que eu escrevi naquele post.

Mas quando eu sentei pra escrever o texto do post, logo ficou claro que eu não seria capaz de fazer um texto razoável a respeito de cada música. Não é que fosse faltar assunto, mas eu simplesmente não sou capaz de falar sobre algumas das coisas que me passam pela cabeça quando eu ouço essa playlist. Não que eu não saiba o que é o quais os sentimentos que essas coisas evocam, mas eu não consigo colocar em palavras algumas dessas coisas.

É como naquela animação, Inside Out, quando a Joy e o Bing Bong estão no trem passando por algumas regiões que ficam propositalmente fora da câmera: raciocínio lógico, dejà vu, processamento de linguagens, dejà vu, pensamento crítico, dejà vu

Outro problema: embora eu saiba um pouco de música (ênfase em pouco), nem de longe eu seria capaz de falar das características musicais dessas faixas. “Ah porque essa escala traduz o sentimento do autor que pipipi popopo”… e assim por diante. Eu não sei falar de escalas, contrapontos, tercinas e etc e tal. Mesmo porque essas músicas podem não ser nenhuma obra de arte do ponto de vista artístico. Closing Time, por exemplo, é uma música bem besta. São seis acordes bem simples que até eu sou capaz de reproduzir.

Mas o mérito dessas músicas não é o de serem “artisticamente significativas”. Elas são significativas pra mim, e pronto.

Significado e adolescência

Closing Time, por exemplo, é de 1998. Eu estava no terceiro colegial (que já se chamava ensino médio, mas foda-se), e foi uma época crucial. Eu tinha certeza de tudo no mundo (qual adolescente não tem?), sabia exatamente o que eu queria e era total e completamente insuportável.

Embora tivesse lá as minhas qualidades, no geral eu era um chato de galocha.

A parte irônica é que, ao mesmo tempo, eu sabia exatamente o que eu queria mas ao mesmo tempo não sabia. É um assunto bem complicado, mas agora eu já comecei então vamos adiante com o barco.

Desde o meio do segundo ano eu estava entranhado com a Física. Digo, antes disso eu já gostava muito da disciplina, mas no meio de 1997 quando teve uma “Feira do Conhecimento” (que era uma Feira de Ciências mas por algum modivo a coordenação do colégio achava que nem todo conhecimento é ciência) e a escola resolveu que cada turma faria um trabalho.

20 adolescentes. Um trabalho. Óbvio que isso não ia dar certo.

Ainda mais quando um desses 20 era um chato de galocha feito eu que, vencido na votação para escolher o tema do trabalho, resolveu “meter o louco” e fazer um trabalho sozinho. As minhas notas eram boas então a coordenação resolveu topar a parada.

O resto da classe inteira fez um trabalho muito interessante sobre biologia. Tipos sanguíneos e fatores de imunidade, coisa bem interessante (hoje em dia, na época eu achava biologia um porre). Conseguiram até arrumar uns kits pra teste sanguíneo então testavam o sangue dos visitantes da feira ali, na hora mesmo. Não sei quem fez quanto do trabalho mas já se passaram mais de vinte anos então foda-se.

Eu, por outro lado, nerdão pra caralho, me meti a fazer um trabalho de Física. E escohi (obviamente) o professor mais chato de Física pra me orientar. Nada contra o Ricardo, pra ser bem honesto, ele era um cara legal. Mas ao mesmo tempo ele era um cara… peculiar, e dos professores de física era o que menos fazia “sucesso” com a turma.

E daí esse cara me apresentou “Sutil é o Senhor”, do Abraham Pais.

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Ahhhhhh esse livro.

Esse livro mudou a minha vida. Eu o devorei num instante, depois li de novo e de novo. Embora eu goste de ler, são muito raros os livros que eu leio de novo. Enfim, de volta com a história…

Trata-se de uma “biografia científica” do Albert Einstein. Embora falasse da vida particular, foca mais na parte científica do trabalho dele, falando da evolução dos conceitos que dariam origem às duas Teorias da Relatividade – a Especial e a Generalizada. O Abraham Pais foi um amigo pessoal dele, e por isso trazia muitos detalhes a respeito de como o próprio Einstein aos poucos evoluiu de uma curiosidade de como uma bússola funciona até as tentativas de criar uma Grande Teoria Unificada.

E isso tudo ficou colado em mim.

Obviamente eu não entendi patavina da parte matemática do livro – cálculo tensorial era uma coisa que estava muito além do que eu era capaz de compreender naquela época. Mas a parte conceitual foi outra história. Eu compreendi – ainda que superficialmente – o espírito da Relatividade, os conceitos nos quais ela se baseia e as consequências.

Claro, eu não dispunha na época do arcabouço necessário pra entender “de verdade” algumas coisas. O próprio Princípio de Equivalência é um negócio que eu só entendi uns anos atrás. Mas pra um projeto de segundo ano do Colegial tava bom demais.

E eu me meti, então, a construir um projeto explicando as coisas mais “legais” da teoria. Alguns pôsteres a respeito do desvio para o vermelho, a aplicação no funcionamento do GPS, e uma maquete de como um corpo massivo deforma o espaço-tempo ao seu redor. Era uma caixa de madeira com um buraco circular no meio e uma bexiga de festa (daquelas grandes, que o pessoal estoura e fica vendo as crianças se matando pra pegar os doces). No centro da bexiga eu coloquei uma bola amarela, que eu puxei por baixo através da bexiga e amarrei no fundo da caixa. Infelizmente não sobreviveu nenhuma foto desse trabalho.

Enfim, eu fiz o trabalho todo sozinho. Bom, mais ou menos sozinho. Meu pai me deu uma mão com a construção da tal caixa. Que cara foda era meu pai.

Então trabalho feito, chegou o dia da tal “Feira do Conhecimento”. Cada turma do colégio tinha um estande pra apresentar o seu trabalho.

E eu tinha o meu.

Pra ser perfeitamente honesto, não sei se o trabalho ficou tão bom assim. Muita coisa eu não compreendia direito, e até hoje às vezes eu me pego pensando no sujeito encardido que veio me encher o saco por causa de como eu falei dos satélites de GPS.

Mas o meu trabalho foi o escolhido como o melhor da feira, e eu dei uma entrevista para a TV local de Itu a respeito. E eu tenho devo ter até hoje em algum lugar uma fita VHS que minha mãe gravou, comigo falando um monte de bosta na TV e até inventando palavras (“alguns aspectos da teoria podem ser didatizados para o público…”). Uma vergonha.

Mas eu não tenho problema com passar vergonha, então tudo bem.

Só pra completar essa tangente enorme, esse envolvimento com a Física foi o que me definiu por muito tempo. Foi assim que eu escolhi a carreira pra prestar no vestibular, e os meus objetivos na vida. Mas isso fira pra um outro post, em outro dia (isso sim vai dar um livro).

Enfim, de volta à musica…

Closing Time faz parte de um conjunto de músicas que saiu bem nessa época, e tocavam o tempo todo no rádio. Então, naturalmente, quando eu ouço essas músicas, a minha mente fica gravitando em volta do que eu vivi naquela época. Eu com certeza não vou consegui listar aqui todas elas, e se for pra fazer uma lista incompleta eu prefiro nem fazer (neste caso).

Como eu (acho que) mencionei no último post, a nostalgia é uma coisa que tem um espaço bem grande na minha vida. Não porque “aqueles tempos” tenham sido melhores que os atuais (embora, vamos combinar, pouca coisa é pior que viver uma pandemia com um genocida como presidente), mas porque as minhas lembranças são muito boas, e essas músicas evocam essas lembranças. O tempo tem esse poder maluco de colocar um “óculos cor de rosa” na nossa frente e fazer a gente lembrar só das coisas boas.

E Closing Time tem uns versos que “pegam lá no fundo”, e me fazem pensar em coisas que são bem peculiares da época. Tipo isso:

Closing time
Time for you to go out to the places you will be from

Segundo o próprio Dan Wilson (que escreveu a música), ela foi escrita enquanto a filha dele nascia, então a coisa toda é uma metáfora pra criança que sai do útero (e dá pra ver isso claramente em alguns versos que ele chama de “adult talk”). Mas esse verso em particular bate em uma tecla que ressoa de um jeito bem diferente.

Ele fala de futuro, e de como quando a gente é adolescente e ainda não sabe pra onde vai e nem o que vai fazer da vida, a gente está indo para “os lugares de onde vamos ser”. Então ele não fala “só” do futuro, mas do futuro do futuro.

Agora neste momento você está indo fazer essa coisa, morar nesse lugar, viver dessa forma. Um dia você vai seguir em frente, e isso tudo que você está prestes a passar vai ser passado. E quando alguém te perguntar, “de onde você é?”, você vai responder “sou de tal lugar”. E esse lugar vai ser essa coisa que ainda está no seu futuro.

Parando pra pensar um pouco, é uma música sobre seguir em frente. É sobre compreender que nada na vida é permanente, nem mesmo aquelas que ainda não vieram. Desprender do passado e pensar naquilo que vem pela frente, criar novas histórias para contar.

Dada a nostalgia que eu sinto quando ouço essa música, a ironia não se perde em mim.

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