Todo ano eu começo a minha retrospectiva reclamando de quanto tempo eu levei pra sentar e escrever. Este ano, eu quebrei todos os recordes. Estamos quase em junho setembro fevereiro do ano seguinte e aqui estou eu, começando a escrever um review sobre o ano passado. Mais um pouco e este post virava um review duplo – 2024 e 2025 ao mesmo tempo (e vejam só: procrastinei tanto tempo que o post REALMENTE virou um post duplo…).
Uma boa parte desse tempo eu passei pensando a respeito de por quê eu procrastino tanto este post. Mais que isso, passei também pensando em qual o sentido de ter um blog se eu mal escrevo nele – pelo menos parte de mim já sabe que eu só mantenho isto aqui por motivos históricos. Pra mim, é muito difícil simplesmente largar as coisas e quanto mais tempo elas duram, mais difícil fica. Este blog existe – em uma forma ou outra – desde, pelo menos, 2002. Então, dá pra imaginar o nível de dificuldade que eu sentiria em simplesmente deixar o blog morrer. Em outras palavras, simplesmente não dá.
E não é por falta de assunto – tem muita coisa que passa pela minha cabeça que eu adoraria colocar aqui. Não só porque acho que são coisas relevantes, mas também porque eu gostaria que este blog fosse um registro das coisas que eu penso e sinto ao longo dos anos. E, de fato, vira e mexe eu volto aqui e fico revendo os posts mais antigos, revivendo tudo pelo que eu estava passando na época que eu escrevia aquilo. É quase uma ferramenta de sanidade mental, porque pra mim o passado é uma bagagem que eu carrego comigo o tempo todo. Esse exercício, de revisitar certos momentos do passado através de fotografias, posts no blog e coisas assim, pra mim é quase terapêutico, porque alimenta essa necessidade incessante que eu tenho de reviver momentos marcantes da minha vida.
Mas, de volta ao assunto: 2024 (e agora, 2025 também).
Casamento
Não pretendo entrar aqui em uma discussão filosófica sobre os méritos (ou falta deles) do casamento. Nem de como a gente pode saber se vale a pena casar ou não. Basta dizer que essa decisão é algo muito pessoal e os motivos que me levaram a isso são só meus. Mas vamos dizer que, ao longo da vida, tive cada vez mais certeza de que “alma gêmea” não existe – nós construímos nossas próprias relações. Não é algo sobrenatural que nos é imposto pelo Universo. Um relacionamento se constrói, requer esforço e comprometimento. Um construto estritamente humano, pois – de certa forma – vai contra o instinto natural.
Pra mim, é algo confortável, e quando encontrei uma parceira à altura, fiz o pedido em 2019. Ela aceitou – e em seguida, veio a pandemia.
Depois que toda aquela bagunça tinha se passado – além de outras bagunças que não vêm ao caso, finalmente tivemos uma data confirmada – por um acerto que não nasceu exclusivamente do nosso arbítrio, mas também das circunstâncias que tínhamos ao nosso redor.
O planejamento foi rápido e ligeiramente enlouquecedor. Não podíamos gastar muito, e por isso acabamos aceitando compromissos que – pra ser franco – não deveríamos ter aceito. Mas queríamos ter essa oportunidade. Aproveitamos, mantivemos uma lista de convidados bem reduzida, e fizemos uma celebração. Pode ter havido problemas, mas eu fico com as lembranças boas. Ainda falta conseguir as gravações e organizar as fotos – casamento de dois TDAHs dá nisso – mas foi um dia muito bom. Agora sou um homem casado – incluindo tudo que isso implica.
Naturalmente, foi mais uma formalização – a vida de casado não tem sido muito diferente da vida de “juntado” – mas mesmo assim é bom celebrar essas coisas. Afinal, são quase quinze anos juntos.
Não que não existam desafios – e agora as soluções acabam sendo diferentes porque tem burocracia envolvida. Mas a verdade é que, “na vida real”, nada daquilo que a gente aprende em séries e filmes se aplica verdadeiramente a um relacionamento. Séries, filmes e outras mídias apresentam situações idealizadas, onde tudo é controlado e (até certo ponto) manipulado para que as coisas aconteçam da forma como o(s) autor(es) querem que aconteça. Na realidade isso não existe, e os resultados das nossas ações são – para todos os efeitos – imprevisíveis.
Então não adianta ficar aqui dissertando sobre como um casamento é ou deve ser. Ninguém é capaz de dizer isso observando “de fora”. Nem mesmo outros casais – a experiência é extremamente íntima e pessoal. Nâo à toa, me irrita profundamente quando alguém vem querer me dizer como o meu casamento tem que ser ou como lidar com ele. Me deixa em paz, me deixa lidar com isso da minha forma, porque só as duas pessoas envolvidas podem realmente entender o que se passa, e mesmo assim a perspectiva de cada um é bastante limitada porque a gente só enxerga metade do todo.
Mas eu posso dizer o seguinte: casamento dá trabalho. E nem estou falando da festa, da celebração, e essas coisas. Mas o casamento em si, dá trabalho. Porque as coisas não acontecem automagicamente, precisa ter conversa, apoio, e principalmente compreensão. Mesmo casadas, as duas pessoas envolvidas são indivíduos diferentes, cada um tem seus pensamentos, emoções, objetivos, e expectativas. É preciso chegar a um ponto de entendimento, se a gente realmente quer que a coisa vá pra frente.
Outro ponto importante, é ter certeza dos motivos pelos quais a gente está fazendo isso. Cada indivíduo tem seus próprios objetivos, sim, mas tem que haver objetivos em comum. Precisa haver um ponto de convergência pro que a gente quer e espera do futuro. Se não, não tem por quê fazer tudo isso.
Além disso, cada casamento é único. No meu caso, eu caio na configuração “padrão”. Mas o casamento não é mais a instituição religiosa nem a transação comercial que já foi no passado. Por isso mesmo é difícil definir tudo sobre ele: se vale a pena, por quê fazer, onde fazer, e principalmente, como fazer. Todo casamento é um casamento, e na verdade não importa mais nada. Ou, pra usar um jargão conhecido, amor é amor. No fim das contas, são os laços entre as pessoas que contam; não quem elas são nem quantas são.
Física Médica
Outro ponto central do biênio 24-25 foi a Física Médica. No post que falava de 2023, entrei pouco no assunto, principalmente porque outras coisas dominavam a minha atenção na época. Mas eu acho que, além de todas as coisas, a Física Médica é a que mais ocupou a minha mente desde 2022.
Hora da historinha
Muito tempo atrás, numa terra não tão distante, eu era um aluno do Ensino Médio. Havia acabado de descobrir o Einstein e a Teoria da Relatividade, e tinha naturalmente me decidido que Física era o que eu queria fazer pro resto da vida. Em um nível que isso passou a ser notório – todo mundo sabia, até mesmo quem não me conhecia.
E então, teve uma excursão. Não lembro exatamente para onde era essa tal excursão. Acho que viemos a São Paulo ver uma peça de teatro. Ou talvez tenha sido uma visita à Pinacoteca. Enfim. O caminho do ônibus envolvia a subida da Rebouças. Para quem não mora por aqui, é importante um pouco de contexto: a Avenida Rebouças é uma avenida importante em São Paulo, que liga a região de Pinheiros, Butantã, Faria Lima (entre outras) à região central da cidade. Chegando na Região da Av. Paulista, dá pra ir pra praticamente qualquer lugar da cidade (afinal é perto do Centro), indo pela própria Paulista, pela Consolação ou pela Av. Dr. Arnaldo, que “faz a volta” e fica pela Zona Oeste (vai parar na Vila Madalena, Lapa, Barra Funda, etc). O ponto é que, logo depois de passar pela R. Oscar Freire, à esquerda de quem vai no sentido centro, fica o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina. É o maior complexo hospitalar da América Latina, e é gerenciado pela USP juntamente com a Secretaria de Estado da Saúde (que, por sinal, fica localizada ali no complexo também). Naquela época, 1997-98, era relativamente recente a criação de certos pontos-chave para a Física Médica ali no HC: o Instituto de Radiologia e o Centro de Medicina Nuclear.
E isso nos leva ao ponto onde eu quero chegar neste breve relato pseudo-auto-biográfico. Quem acompanhava a gente nessa excursão era uma pessoa chamada Ana Lúcia, de quem eu me lembro com carinho até hoje; e, mais que a maioria das pessoas, ela tinha um interesse especial nos planos e expectativas dos alunos do Colégio Terras com relação ao futuro. Afinal, ela era Coordenadora Pedagógica da escola, e acabava atuando também como conselheira vocacional. Então (suponho) ela buscava manter em mente o que cada um queria, e oferecia caminhos e alternativas pra cada um.
No meu caso, ela naturalmente sabia da minha paixão pela Física. E, com a criação do InRad e do CMN, estava em evidência a expansão da Física Médica no Brasil. E, por isso, quando passamos pelo HC, ali em frente ao CMN, não deu outra: ela me cutucou no ombro e falou “olha, Chico, Física Médica!”.
Pensando nisso agora, parece uma sequência de palavras sem muita conexão; preposições, adjetivos, artigos e outras coisas “inúteis” fazem falta!
Mas, é claro, estando ali onde eu estava, olhando para aquele local que eu já sabia bem o que era (por motivos fora deste escopo, eu “frequento” o HC há 35 anos), entendi imediatamente o que ela estava tentando dizer.
Com essas quatro palavras, ela dizia: “observe, querido pupilo, este local em cuja vizinhança estamos agora transitando! Trata-se de um local possível de atuação profissional para alguém como você, cujas pretensões incluem o estudo aprofundado da disciplina da Física, cujo objetivo é desvendar o funcionamento da natureza e fornecer subsídios para o avanço da espécie humana! Considere, em suas reflexões com relação à sua futura jornada nesta Terra, aplicar-se dentro dessa disciplina ampla e profunda que é a Física, com vistas a buscar um maior entendimento das aplicações dos seus conceitos na área da Medicina, onde a atuação de um profissional com formação de excelência como você eventualmente deverá se tornar, além daquelas mais usuais no que se refere à atuação profissional de um cientista!”
Tomei alguma liberdade na escolha de palavras acima, é claro; ninguém fala assim! Mas resolvi escrever dessa forma mais rebuscada, justamente pra ilustrar como a comunicação entre as pessoas vai além das palavras. Não é o ponto deste post, mas não importa.
Voltando ao ponto, naquela época eu ainda estava naquela fase mais extrema do meu envolvimento com a Física, fascinado com a forma como ideias complexas e encadeadas são capazes de explicar o funcionamento da Natureza. Estava encantado com a forma como, pela primeira vez na vida, vi que era possível estabelecer uma sequência lógica ligando dois pontos, de forma a construir uma explicação “a partir de primeiros princípios”. E a Relatividade faz isso muito bem: ela parte de dois princípios relativamente básicos e constrói um arcabouço vasto e profundo, que é capaz de explicar coisas tão imensas que elas desafiam a nossa capacidade de compreensão, respondendo a perguntas primordiais: “de onde viemos? para onde vamos?”. É um pouco clichê, mas no fundo é isso.
Enfim. Era nessas coisas que eu pensava, quando respondi “que legal!” pra Ana Lúcia, sem intenção absolutamente NENHUMA de voltar a pensar naquilo pelo resto da vida.
Bem, quis a vida que eu pagasse caro por aquilo. Pra mim é difícil falar de esoterismo, porque tudo não passa de efeito psicológico e analfabetismo científico. Mas enfim “karma is a bitch“.
Desnecessário dizer, mas a minha graduação não foi nada do que eu esperava; já refleti sobre isso aqui, então basta dizer que eu não estava preparado. Hoje em dia eu aconselho quem termina o Ensino Médio a tirar pelo menos um ano pra viver sem escola um pouco, talvez encontrar uma outra atividade, antes de se comprometer com uma faculdade. Isso ajuda a ganhar um pouco mais de perspectiva, pé no chão e, principalmente, maturidade. Porque entrar na faculdade com 17-18 anos não é uma coisa legal como parece. A gente precisa aprender a ter um pouco de calma, paciência, para encarar as coisas com um pouco mais de sabedoria e não quebrar a cara – que foi exatamente o que aconteceu comigo. Cheguei no Bacharelado achando que ia passar o tempo do mesmo jeito que eu havia feito durante o EM, fui pego desprevenido e isso acabou comigo.
Minha trajetória seguiu caminhos tortuosos, e no fim das contas, quando me formei, me vi trabalhando com – veja só – vacinas. Mesmo sem saber, eu já tinha um pé na Física Médica. Uma colaboração com o Instituto Butantan foi o que alimentou tanto o meu mestrado quanto o doutorado, e esses tópicos nunca mais saíram de tudo que eu fiz desde então.
Predestinação
Não à toa, quando eu estava fazendo minha inscrição na Fuvest 2022, achando que minha vida na Física tinha acabado e totalmente decidido a buscar uma nova carreira na Ciência da Computação, não foi realmente nenhuma surpresa que, quando a Física Médica apareceu ali na lista de opções, eu não pensei duas vezes antes de fazer a minha escolha.
Sempre gostei de Computação e computadores, mas a Física… bom, minha relação com ela é algo que eu ainda trabalho pra entender e ser capaz de descrever em palavras. Por enquanto, basta dizer que ela “me puxa” de um jeito que eu sou incapaz de resistir.
Isso me deu uma certa sensação de ser um “predestinado”: às vezes parece que minha vida toda foi uma série de escolhas cujo único objetivo era me trazer para a Física Médica. Isso abre a porta para outras perguntas e divagações… mas vamos tentar, até onde possível, manter o foco aqui.
Também não à toa, escolhi refazer praticamente todas as disciplinas da graduação. Nestes quatro anos até aqui, só pedi aproveitamento de duas disciplinas, porque até eu tenho meus limites (e esses limites foram Cálculo 3 e Cálculo Numérico).
De resto, fiz tudo de novo. O que foi bom por dois motivos: primeiro, me trouxe mais para perto dos colegas. Por si só isso já teria sido suficiente; pude fazer coisas que sei que deveria ter feito na primeira graduação mas que, por falta de maturidade, tinha evitado. Além disso, pude (graças ao hiperfoco) me integrar com todos, conversar com as pessoas, ajudar, aconselhar e apoiar sempre que pude. Segundo, que tem a ver com o primeiro, me envolvi muito mais. Virei Representante Discente e ajudei a construir o curso; faço parte da primeira turma, e por isso o curso sempre vai ter alguma coisa de mim nele. E isso é algo que pouquíssimas pessoas podem dizer. Mas meu envolvimento foi além disso, porque desta vez eu interagi de uma forma muito mais apropriada com o CEFISMA, e busquei estar “do lado certo da história”. Isso tem a ver com algo que já mencionei aqui antes, que é o fato de eu ter finalmente entendido que os meus princípios estão muito mais alinhados com a “Esquerda” (um termo que eu não gosto muito porque simplifica demais algo que está LONGE de ser simples).
Refazer certas disciplinas depois de 25 anos me deu uma perspectiva muito interessante. Já falei sobre isso antes. Mas vai além disso, porque em disciplinas como Cálculo, por exemplo, fui (finalmente) capaz de apreciar certas sutilezas do conteúdo que me passaram totalmente batidas antes. E isso vale para praticamente todas as disciplinas que eu cursei novamente. Exceto laboratório, que infelizmente só piorou e, pra ser honesto, não me acrescentou em nada (mas pelo menos pude ajudar os colegas).
Finalmente, como eu já falei antes em outro lugar, encontrei na Física Médica uma vocação. Me sinto compelido pela área e por tudo que ela faz. Tenho orgulho de me considerar pertencente à Área da Saúde. A ponto de seriamente considerar opções que, objetiva e financeiramente, são piores, só pra poder continuar nesse caminho.
O DCMTC
Esse é relacionado com a Física Médica, mas achei melhor deixar separado.
Fundamos o nosso Diretório Científico. Desde o começo eu fui contra a criação de um Centro Acadêmico exclusivo do nosso curso, porque somos poucos e já temos o CEFISMA, que mesmo com seus defeitos tem uma história importante e maior capacidade de atuação que um eventual CA da fismed teria.
Mas o lado acadêmico e profissional é diferente. Outras pessoas já encabeçavam a ideia, e de fato acabei sendo convencido de que valia a pena uma entidade com esse foco. Pra começar, para abrigar as Ligas Acadêmicas (que são comuns na Saúde mas nas Exatas são praticamente inexistentes), mas aí surgiu a oportunidade de atuar de outras formas também. Organizando a “Semana da Física Médica”, por exemplo, ou apoiando a Semana de Recepção aos Ingressantes.
Então resolvemos criar o nosso Diretório, e ele é um diretório porque agrega várias atividades distintas: as Ligas e a Semana Acadêmica, por exemplo. Juntamos o pessoal interessado e fizemos uma reunião de fundação, na qual eu fui escolhido (meio a contra-gosto, mas ao mesmo tempo com um certo orgulho) como Presidente. Nesse tempo, busquei sempre representar os interesses do DC da melhor forma que pude, buscando contatos, orientando, mediando, opinando… mas ao mesmo tempo buscando chegar a uma situação em que todos tivessem autonomia para atuar, seja nas Ligas, na organização da Semana, na Recepção, na organização de eventos e assim por diante.
Mais importante, sempre reforçando que nosso maior princípio norteador é o fato de que tudo que fazemos é uma ação coletiva, isto é, ninguém faz nada sozinho. Pode parecer meio complexo, e às vezes as coisas andam mais devagar, mas acho que é fundamental que todos estejam caminhando não apenas na mesma direção, mas juntos. Tudo que eu faço e digo sempre nasce dessa semente.
O nome vem de uma das pessoas mais importantes da Física Médica no Brasil: Marília Teixeira da Cruz. Com certo exagero, tudo nasceu da disciplina de Física das Radiações, que ela criou, no IFUSP. Nada mais justo que fôssemos nós, alunos de um curso do instituto onde ela atuou, a fazer essa homenagem.
Nesses dois anos, mesmo sendo poucos, conseguimos muitas conquistas. Subimos o nível da Semana Acadêmica, tivemos um dos maiores cursos introdutórios de Liga da FMUSP com a Radioterapia, organizamos palestras… com muito suor e trabalho, estamos crescendo.
Nosso maior desafio é manter a renovação viva: daqui a pouco, o pessoal começa a se formar e precisamos ter pessoas para ocupar os cargos e tocar o trabalho em frente.
De volta ao RPG
Depois de DEZ anos sem uma única sessão de RPG, voltei à ativa.
Minha abordagem com RPG é bem pouco tradicional – dá pra contar nos dedos as vezes que eu joguei um RPG “padrão”, no sentido que as pessoas normalmente entendem. Ou seja, aquela sessão de D&D com guerreiros, magos, bárbaros e rangers.
Minha experiência com RPG é relativamente bem variada, mas centrada em jogos da While Wolf. Já joguei sistemas alternativos, e não foi pouco. Paranoia, Toon, Rolemaster, Tagmar… até sistemas caseiros eu já experimentei.
Mas a maior parte das vezes eu sempre joguei alguma variante do sistema criado pelo Mark Rein-Hagen. Não necessariamente as abordagens temáticas e narrativas, mas o lado mecânico. Eu acho legal usar dados diferentes, mas o d10 pra mim é um caso especial. Sob um ponto de vista estatístico, usar pools de d10 é uma abordagem muito mais flexível e verossímil que o d20, que pra mim simplifica demais enquanto ao mesmo tempo busca remediar essa simplificação, o que só complica as coisas. O Storyteller, que nasceu de uma junção do Ars Magica com Shadowrun (e mais umas outras influências) sempre foi onde eu me senti mais à vontade.
Dentro do “universo” do Storyteller, eu primeiro me joguei com tudo em Vampiro. Um pouco nos outros (Mago, Lobisomem, etc), mas principalmente Vampiro. A ambientação era mais fácil de abordar, porque eu podia (como Narrador) usar o meu próprio ambiente como ponto de partida. Isso ajuda porque assim eu não precisava ficar dando aula de história e geografia de uma ambientação diferente só pra poder jogar – porque, ainda por cima, eu nunca me senti confortável supondo logo de cara que as pessoas tenham alguma familiaridade com a ambientação que eu escolho.
E daí, em 2001… veio Exalted. Mesmo confortável com Storyteller, eu sentia falta daquele trope do RPG, de jogar num cenário inspirado em um mundo “pseudo-medieval”, “sem tecnologia”, com castelos e etc. Exalted meio que cobria essa necessidade, mas com uma abordagem à la White Wolf. Inicialmente, ele foi vendido como sendo uma era anterior à era atual do metaplot de Storyteller (que envolvia Vampiro, Mago, Lobisomem e todo o resto). Mas isso acabou sendo abandonado logo cedo, deixando pra trás alguns pontos de referência que permanecem até hoje.
Levou anos até eu ter a chance de jogar. Exalted era um sistema bem desconhecido e as pessoas não tinham tanto interesse assim em sair do que já estavam acostumadas a jogar. Mas eventualmente, consegui montar minha primeira mesa. Eu acho que fui um dos primeiros narradores de Exalted do Brasil. Me envolvi tanto que cheguei a ter três mesas simultâneas, todas com sessões semanais. Eu realmente jogava muito, estudava a ambientação, discutia regras nos fóruns, criava cenários alternativos… era ótimo.
Sinceramente nem sei direito com eu conseguia fazer tudo isso. Mas fazia. Eu era tão fluente no cenário e no sistema que mal precisava preparar coisas pras sessões. Estava tudo tão fresco na minha memória que eu era capaz de improvisar regras e situações praticamente sem esforço. Provavelmente era assim que eu conseguia tocar tudo isso adiante.
Mas, é claro, a vida segue e o ritmo das sessões começou a diminuir. Outras coisas foram acontecendo na vida, e aos poucos eu comecei a jogar menos. Grupos de jogadores foram se desfazendo e aí a coisa desacelerou. Eventualmente, tive uma última sessão lá em 2014, que não terminou muito bem, e daí fiquei sem jogar.
Com o tempo fui me afastando e daí parei de saber das novidades e das mudanças no jogo. Agora tenho passado pelo exercício quase doloroso de recuperar o que eu tinha, e mesmo assim acabo ficando desatualizado. Quando saí do jogo, a segunda edição ainda estava fresca, e a terceira estava ainda só no começo. Agora, a segunda edição já foi abandonada, muito embora ainda tenha muitos jogadores fieis, e a terceira é a que domina. É uma evolução importante do cenário, sendo lançada a um ritmo mais lento. Ao mesmo tempo, ela parece ser feita com maior cuidado, que é a principal razão do ritmo mais lento de lançamentos, e só de pensar em fazer a transição já me dá um desânimo, porque seria uma tarefa hercúlea. Não só a maior parte da minha biblioteca é da segunda edição, eu não me sinto muito à vontade com livros digitais. Preciso ter o livro físico na mão, mesmo que esteja usando o PDF pra consultas ou leituras que sejam necessárias. Além disso, viver no Brasil sendo fã de RPG também é um desastre. Conseguir os livros físicos é basicamente impossível, porque além de já serem caros ainda há os custos de importação.
Junte-se a isso o fato de que eu sou um jogador “das antigas”, isto é, gosto de jogar com papel. Não gosto de fichas digitais; pra mim a experiência do RPG envolve o contato físico com o material, a presença das pessoas ao redor da mesa, o lançamento dos dados. Tento evitar ao máximo qualquer coisa digital.
Mas ao mesmo tempo tem sido um ótimo exercício. Tinha esquecido de como o RPG é uma atividade que absorve. Ao mesmo tempo, me divirto lendo a respeito, me torturando sobre como funciona uma certa mecânica, pensando nas consequências das coisas que acontecem na sessão, lidando com o que os jogadores fazem frente aos desafios que eu coloco pra eles. Acho que a maior parte da diversão que eu tenho no RPG vem justamente dessa preparação. As sessões em si viram uma atividade social que é consequência disso. Jogar RPG é realmente uma experiência completa.
Abraçando (aceitando?) a IA
2025 em particular foi um ano em que eu acabei aceitando um pouco mais a Inteligência Artificial (que, vamos ser francos, não é nada disso).
Tem uma ilustração que eu não lembro onde foi que eu vi que mostra um diagrama de Venn dos diversos tipos de “Inteligência Artificial”. E nessa ilustração, a IA “verdadeira” está num círculo que não tem intersecção nenhuma com o que atualmente as pessoas chamam de IA. Isso porque a IA atual é, pra tentar sintetizar, “uma busca na web com camadas de álgebra linear por cima”. Isso porque, antes, a gente “jogava no Google”. Agora, a gente pergunta pra IA (LLM, na verdade), e ela processa esse pedido por um conjunto de operações que estabelece correlações estatísticas que resultam numa combinação de palavras que, teoricamente, têm relação com o prompt inicial.
E o mais impressionante é que funciona! Some-se a isso mais umas camadas pra fazer o modelo se expressar de forma mais “humana”, e vc tem uma ferramenta que, superficialmente, parece uma “Inteligência Artificial”. Mas é importante ter sempre isso em mente, ao interagir com esses modelos, porque não é viável (e francamente espero que nunca seja) confiar “plenamente” nesses modelos como algumas pessoas advogam, porque eles podem falhar, e porque eles são limitados pelas informações que são usadas no seu treinamento. O pensamento crítico, a inovação e a criatividade ainda são searas humanas. LLMs só fazem o que foram treinadas para fazer – mesmo que isso possa, hipoteticamente, resultar na emergência de algo novo.
Com isso em mente, é bobagem pensar que, quando a “bolha da IA” FATALMENTE estourar, essas ferramentas acabem desaparecendo. Essas bolhas tecnológicas já aconteceram antes, e acontecerão novamente no futuro; de certa forma, é assim que tecnologias altamente impactantes acabam entrando no mundo. Existe um transiente (a bolha) e um estado estacionário (a integração da tecnologia ao status quo). Sinceramente, esse estado estacionário das IAs não poderia chegar cedo o suficiente.
Então em 2025 eu comecei a usar LLMs com maior frequência, e como ferramenta. Como parceires de estudo, auxiliares para escrita, preparação para o RPG, guias de consulta pra resolução de problemas técnicos, e até mesmo neste blog… tem sido uma experiência… edificante para a minha produtividade. Elas mudaram a forma como eu trabalho e, atualmente, tenho dificuldade em pensar em como eu fazia as coisas antes disso.
Brasil e mundo
Enquanto eu estava ocupado lidando com casamento, Física Médica, DCMTC, RPG e minhas próprias obsessões internas, o mundo obviamente não se deu ao trabalho de dar uma pausa.
No Brasil, 2024 e 2025 foram anos de uma espécie estranha de normalidade frágil. O governo Lula seguiu tentando reconstruir pontes institucionais depois do desastre político do ciclo anterior, mas a sensação constante era a de que tudo funcionava no limite. Não houve grandes rupturas democráticas, o que por si só já pareceu uma vitória, mas também não houve exatamente um ambiente de estabilidade. A polarização não desapareceu; apenas mudou de forma. Menos histeria aberta, mais desgaste contínuo. O debate público segue raso, performático e frequentemente desconectado de qualquer tentativa real de resolver problemas estruturais (por mais que os indicadores econômicos estejam melhorando.
A ciência, a educação e a universidade continuaram naquele lugar desconfortável de sempre: todo mundo afirma que são fundamentais, mas quase sempre na forma de discurso. Na prática, financiamento instável, condições de trabalho precárias e uma sensação persistente de que fazer ciência no Brasil continua sendo, antes de qualquer coisa, um exercício de teimosia. Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul deixaram isso ainda mais explícito: pesquisadores, universidades e institutos públicos atuando na linha de frente, enquanto o poder público corria atrás do prejuízo. A emergência climática deixou de ser uma abstração estatística e virou lama, água dentro de casa e perdas irreversíveis.
Fora do Brasil, o cenário foi igualmente desastroso. A guerra na Ucrânia seguiu se arrastando, já quase naturalizada no noticiário, enquanto o genocídio na Faixa de Gaza escancarou, mais uma vez, os limites — ou a completa falência — da chamada “ordem internacional baseada em regras”. Ver Benjamin Netanyahu conduzir uma campanha militar devastadora, com apoio explícito ou silêncio constrangido de boa parte do Ocidente, tornou difícil manter qualquer ilusão sobre coerência moral na política internacional. Mais uma vez, um exemplo doloroso e embaraçoso da pedagogia do oprimido.
Nos Estados Unidos, o retorno de Donald Trump ao centro do palco político em 2024 foi mais um lembrete de que certas feridas não cicatrizam sozinhas. A ideia de que os eventos da década passada tinham sido um “desvio” ficou cada vez mais difícil de sustentar. Talvez aquilo tudo tenha sido apenas um sintoma mais visível de algo mais profundo (às vezes eu acho que estamos de fato vivendo o fim do mundo, como se estivéssemos em um daqueles filmes de desastre).
Ao mesmo tempo, a crise climática deixou de ser pano de fundo e passou a impor presença. Ondas de calor recordes, eventos extremos cada vez mais frequentes, cidades despreparadas lidando com consequências previsíveis de decisões adiadas por décadas. O discurso de surpresa já não convence ninguém que esteja minimamente atento.
E, como se isso não bastasse, a tecnologia seguiu avançando num ritmo quase obsceno. Ferramentas baseadas em inteligência artificial passaram de curiosidade técnica a infraestrutura invisível. Elas entraram no trabalho, no estudo, na produção de texto, de imagem, de código — e até na forma como a gente organiza o próprio pensamento. Junto com a promessa de eficiência vieram novas formas de precarização, ansiedade e uma sensação difusa de que estamos sempre tentando alcançar algo que se move mais rápido do que a nossa capacidade de acompanhar.
Como falou alguém em alguma rede social por aí: “era pra IA lavar a minha louça e fazer a minha comida pra eu poder inovar, fazer arte e crescer, mas sou eu que me mato de trabalhar pra IA substituir o elemento mais humano da humanidade” (sic).
Talvez o traço comum desses dois anos tenha sido essa sensação constante de sobreposição: tudo acontecendo ao mesmo tempo, em todas as escalas, enquanto a capacidade individual e coletiva de processar, refletir e responder parecia cada vez mais limitada.
Conclusão
No fim das contas, 2024 e 2025 acabaram se revelando menos como anos específicos e mais como um período contínuo de ajuste. Ajuste de expectativas, de prioridades, de ritmo. Algumas coisas se formalizaram, outras retornaram depois de muito tempo, e várias simplesmente encontraram um novo lugar — não necessariamente melhor, mas mais honesto.
Olhando pra trás, fica claro que quase nada disso aconteceu de forma isolada. Casamento, Física Médica, o Diretório, o RPG, a relação com tecnologia, tudo isso se misturou num processo que foi muito mais sobre como fazer as coisas do que sobre o que fazer. Menos decisões espetaculares, mais trabalho cotidiano; menos rupturas dramáticas, mais continuidade consciente.
Ao mesmo tempo, o mundo lá fora seguiu do jeito que tem seguido: barulhento, instável, cansativo. Talvez por isso mesmo tenha ficado ainda mais importante cultivar espaços onde seja possível pensar com um pouco mais de calma, construir algo com outras pessoas, ou simplesmente sentar à mesa, jogar dados e fingir — por algumas horas — que o tempo obedece a outras regras.
O que resta é a antecipação dessa última fase da graduação na Física Médica, e uma decisão (relacionada a ela) crucial a ser tomada este ano. Fora isso, buscar alguma forma de estabilidade, e ferramentas pra lidar com as minhas próprias limitações. E sem esquecer deste blog, porque escrever estes posts é uma forma bem satisfatória de processar tudo isso.



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